Uma heroína na Guerra do Mirandum

Em 1762, Portugal estava em guerra com a Espanha, a Guerra dos Sete Anos na história de Portugal e Universal, a Guerra do Mirandum na história mirandesa, e que ainda hoje se dança e baila na dança dos paulitos da qual constitui um lhaço: 

Mirandum, mirandum, Mirandela,
Mirandum se fui à la guerra,
Num sei quando benerá,
Se benerá pu’la Páscoa,
Se pur la Trenidá. 

Passou-se a Trindade sem Mirandum ter regressado e então, 

Tirai bestidos de gala,
Besti bestidos de lhuito,
Que mirandum iá iê murto.
Iou bem lo bi anterrar
Antre quatro oficiales
Que lho ibam a lhebar

Na história de Portugal, como na de outros países, há lendas, tradições e fantasias que impressionaram o povo daquelas épocas. Entre nós, por exemplo, a lenda das trutas durante o cerco de Celorico da Beira, a de Deu-la-Deu-Martins, no cerco de Monção e então a mais célebre de todas, conhecida em todos os cantos do país, a da padeira de Aljubarrota. Lendas de carácter maravilhoso e imaginativo tanto do gosto popular e para o povo suficientes para explicação dos factos.

Ora, é a lenda da padeira de Aljubarrota, a tal que matou sete espanhóis no forno com a pá do ofício, coisa que nunca aconteceu, e que faz recordar um caso verdadeiro que se passou quando Miranda estava cercada pelas tropas espanholas, em Maio de 1762, ou seja o facto de uma mirandesa ter matado, com o espeto, um sargento espanhol.

Camilo Castelo Branco, no seu livro “Noites de Insónia” narra este episódio e publica, com o respectivo intróito, o seguinte soneto:

«Qual acção é mais memorável: a da forneira de Aljubarrota, matando os castelhanos com a sua pá; ou a da mulher de Trás-os-Montes, matando o sargento espanhol com o espeto?»

 Eis o soneto: 

É problema que deve disputar-se,
entre os autores de mais nome e nota,
se pode essa mulher de Aljubarrota
com a de Trás-os-Montes comparar-se.

Aquela tem razão para gabar-se
de fazer com sua pá tanta derrota;
esta, que deixa co’a barriga rota
ao sargento, também deve estimar-se.

E esta a meu ver, melhor juízo tinha,
pois vingando o marido seu dilecto,
fez o que ao seu génio lhe convinha.

Meteu-se-lhe nos cascos o projecto
de tratar o espanhol como galinha,
e, assim que topou um, pô-lo no espeto.

Diz-nos Camilo que o autor do soneto é contemporâneo dos factos e o grande escritor classifica o soneto de chocarreiro e de jacoso, porque «as musas sérias não acharam a heroína digna de poesia grave». E, quando ironiza essas lendas da padeira e do caldeirão tomado aos espanhóis em Algubarrota, escreve: «Houve outra heroína mais digna de lembrança e, todavia, ignorada. Essa praticou um feito de nobre coragem, defrontando-se a rosto com o inimigo, e derrubando-o ».

Nos arrabaldes da cidade virados ao Fresno e à ponte dos Canos, construção dos séculos XIII-XIV vivia uma mulher nova, e o seu homem fazia parte das guerrilhas.

Deu-se o caso de a rapariga agradar a um sargento espanhol que, uma noite e acompanhado por dois soldados, resolve ir a casa dela, ignorando que o homem tinha regressado ou que ela era casada.

Pressentidos, espreita e diz ao marido quantos eram. Dirigem-se para a porta, ele com a espingarda, ela com o espeto da cozinha e, abrindo-a de repente, o homem com um tiro tomba um soldado e, ainda que ferido, consegue matar outro, anavalhando-o. A mulher, essa, matou o sargento, trespassando-o com o espeto.

Depois, carrega o marido para junto dos guerrilheiros, já morto.

«Nada mais se sabe desta mulher. Não consta sequer que o governo de D. José I lhe mandasse reconstruir o casebre (que fora incendiado) acabada a guerra», escreve Camilo.

yousoumirandes@gmail.com 2004 © Site: Autoria Raúl Silva
colaboração de Teresa Ferreira
e Rita Segundo