Antre canas e canicas

 

Antre canas e canicas

Linda auga bai nacer

Menina que estais na fonte,

Querga-me dar de bober!

A púcara está cobrada

'stá tocada à

Oh quem tubira dai dita,

De dar auga a tal senhor!

- Teneis o corpo bem feito,

E as pernas assi serão?

Dai-me licença, menina,

Para ber se sim ou não;

- Licença bós a teneis,

Mas agora ainda não;

Não sei se sereis o home

Que me ha-de poner a mão.

- Eu à mão nun bo-Ia pongo.

Tão pouco bulo conbosco,

Solo em estar ao pé de bós,

Nisso lebo grande gosto.

- Se nisso Ihebais grande gosto

Gostai por bias da bossa,

Esta rosa que eiqui 'stá,

É d'outro que não é bossa.

- Isso q'ria eu saber.

Já bou tchamar bosso pai,

Que bos benha a receber.

- O meu pai não é tchamado

Por cousa tão escusada,

Inda sou muito nôbica,

E nun sei gobernar casa.

- Outras mais nobas que bós

Gobernam casa e marido,

Quererieis bós casar comigo?

 - Mais queria ser rosa branca

Posta naquele outeiro,

Doque ser enxubalhada

Pur tão reles cabalheiro,

- Mais q'ria ser crabo roixo,

Anxertado na raiz,

Que casar cuntigo, rosa

Que fuste de quem te quis.

Este rimance é do mais rústico que se conhece. Recitado em português bem raçado do mirandés. É raro aparecer um tão mixto e tâo claro. Já recolhido em 1938, ainda havia em Miranda. cidade. gente rústica, falando a linguagem herdada dei mirandês. mas onde termos como .• fonte .• , quem. bem. serão. bulo. que são puramente portugueses e existentes na cidade mas o resto da linguagem é puramente mirandesa e a mistura dá um maravilhoso exemplar de musicalidade e de expressão mixta.
Cancioneiro Tradicional Mirandês de Serrano Baptista
yousoumirandes@gmail.com 2004 © Site: Autoria Raúl Silva
colaboração de Teresa Ferreira
e Rita Segundo