Terra Portuguesa
Revista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnográfica Natal de 1916
VERGILIO CORREIA

 

ROCAS ENFEITADAS

Miranda do Douro, na raia de Espanha, entestando com territórios do antigo reino de Leão, por quem foi muito influenciada, afasdada quasi um cento de quilometros das estações ferroviarias de Bragança ou Carviçaes, é ainda -emquanto espera um caminho de ferro que Ihe roubará metade do seu valor etnografico

e, talvez, da sua felicidade economica, - o que se chama uma região inexplorada.

Linguisticamente, alguns autores – e todos razoavelmente mal, segundo afirmam os naturaes, que disso supoem entender melhor do que ninguem - investigaram de raizes, descobriram morfologias, publicaram documentos acêrca do denominado dialecto mirandês.

Arqueologicamente, um ou outro investigador recolheu vestigios materiaes dos remotos possuidores da terra, pre-romanos ou romanos. Etnograficamente, porem, póde dizer-se que está tudo por fazer.

A habitação mirandêsa, curiosissima na sua disposição estrutural e no seu recheio, os utensilios e os usos agricolas, os vestuarios tipicos ainda mantidos, sobretudo ao longo do Douro e nas freguesias raianas do norte, os custumes familiares, civis e religiosos, tudo merece urn estudo desenvolvido, cuidadoso, e,  principal mente, amorável.

Que Jupiter, pae dos deuses, nos defenda desses  etnografos empedernidos, em cujas mãos a mais delicada, sentida e perfumada produção da alma popular perde o viço e emurchece, como se fosse tocada de um pestífero!

Que perda incalculavel nao foi, por todos os motivos, a de Rocha Peixoto!

Mas que, depois de conhecida, não se tente tornar Miranda uma região de turismo! A sua linda capa de honras entraria a figurar nas entrudadas citadinas, e as suas moçoilas, pesadas e bisonhas, deixariam de vestir saias de xerga por' elas proprias fiadas, e passariam a cantar ·couplets de revista arquitonta, que, por emquanto, - Deus seja louvado! - ainda lá não chegaram ...

Para ca de Pinello começa o planalto, que depois se prolonga para o nascente, até às àguas do rio e, para o sul, até às serras do Mogadouro.

Fig. 1 - Mirandeza de Malhadas, fiando

Por todo ele, terrenos ora schistosos ora graniticos, raramente mosqueados de afloramentos de marmore, como em Santo Adrião do Vimioso; largos cabeços de levissima ondulação; vales pouco profundos, onde o arvoredo se adensa; grandes aldeias rodeadas e entrecruzadas de troncos seculares de negrilhos ou de amoreiras, restos de veihas plantações; gados abundantes, que são a principal riqueza dos moradores. E eis, num bater de azas, no que consiste o planalto mirandês.

Nesta vasta região, fundamentalmente agricola e pastoril, os costumes, sem nada da aspereza serrana das nossas montanhas transmontanas ou dos planaltos barrosão e montemurense, conservam uma frescura e uma graça de primitividade feliz, que em parte alguma se torna mais a encontrar.

Nada de brutal, grosseiro, ou miseravel. Ao contrario: a gente mirandeza é polida, amavel, embora  desconfiada, e rica. Desenvolveu, no seu isolamento, uma civilização em que nada nos fere e que só se distingue da do resto da provincia em se conservar mais pitoresca e, porventura, mais feliz.

Uma das manifestações mais notaveis e, decerto, mais basilares desta civilização particularista, laivada ainda de traços de comunismo primitivo, é o trabalho feminil da fiação e tecelagem caseiras.

Pode dizer-se que a gente de Terra de Miranda se veste e se agasalha com a lã das suas canhonas (ovelhas), ou com o linho dos seus lameiros e encostas. Hoje ainda, quando já em todo o resto do pais a maior parte dos tecidos são fornecidos pelas fabricas, no planalto, a  mulher e o homem conservam, em grande parte, os seus vestuarios antigos de burel, com meia pisa ou pisa inteira.

Fig. 2 - Roca Mirandesa com prendedor

Rocha Peixoto, no seu extraordinario artigo sobre o Trajo Serrano, um dos mais interessantes estudos etnograficos publicados até hoje, entre nós, deixou inventariadas as pec;as principaes e tipicas do vestuario regional.

A moça espantadiça e perfeitaça da fig. 1 está vestida com o trajo carateristico da Terra: saia de xerga, ou burel, com meia pisa, tingido de negro; colete de seda com ramagens - talvez daquela mesma seda que se tecia aqui ou em terras de Bragança-, apertado com cordões e deixando entrever, cingindo os seios, a larga faixa vermelha de lã; bajú, o pitoresco casaquinho preto com as mangas presas em duas ordens de prégas, ao caír do ombro, e com o seu flamante, rebordado, rabécho, atrás; camisa de linho alvo com a góla guarnecida de rendinhas feitas à agulha; lenço de seda, de franjas, apertando a cabeça, no gosto classico da região. Nas orelhas, tem argolas; ao pescoço, cingido, um colar de perolas de ouro, filigranado; nas mãos a róca carregada de lã alvissima, apertada em manêlo por um baraço, e o fuso de grandes dimensões, em maçarocado já.

Está aqui, completo, o tipo da mulher do povo do planalto mirandês.

As velhas, conservam integralmente, religiosamente, este trajo, excétuando o colete e o lenço de seda, que só se usam em festas, e são substituidos, na vida quotidiana, por lenços e coletes de lã ou algodão.

Por seu turno, o homem veste-se de burel e cobre-se, de inverno, com a capa de honras, pesado e pitoresco agasalho feito de pardo ou canhona, burel completo e de cor natural, enfeitado com outro tingido de preto.
          Quando não anda pelos campos, mourejando, como os homens e mais do que eles – é tradição, mentirosa mas significativa, de algumas terras que, emquanto a mulher ía lavrar, o homem ficava na taberna a fazer meia, - a mirandeza fia o linho, a estôpa e, principalmente, a lã, para peças de vestuario e para cobertôres, mantas e sacaria grossa. Todos os sacos que se usam na região são, efectivamente, de estôpa ou de lã, nos tons naturaes, ou divididos em faixas, alternadamente brancas e pardas. Algumas vezes, parte dessas faixas são tingidas por processos primitivos em côr de vinho, tal qual como soe fazer a gente rude das serras vizinhas de Castro Daire.

Aqui, portanto, melhor do que em qualquer outra parte, se pode aplicar, para a muIher, aquela sentença do rifão popular: «Mãe, que cousa é casar? Filha, é fiar, parir; chorar».

Se o movimento demografico acusa grande natalidade, não sei; agora, que as mirandezas passam metade da vida a fiar, disso póde qualquer assegurar-se percorrendo o planalto.

E é esse um dos grandes encantos da região. O que noutros sítios se faz isoladamente, tendo de procurar-se, para se poder estudar, e aqui geral; em toda a parte se nos patenteia o trabalho do linho ou da lã, como função indispensavel, basilar, da vida.

A mulher, velha ou nova, no tempo que Ihe fica livre do arranjo da habitação, fia sempre: dentro de casa, á porta da rua, quando vae para a fonte esperar a vez, quando segue para os campos guardar ou colher novidades, ou levar a comida a pessoas de familia. Para que as creanças não Ihe impeçam o trabalho, se tem de saír de casa, põenos às costas, dentro de uma especie de saco que fórma com o chale, precisamente como as negras, as japonesas, ou, mesmo na Europa, as ciganas e as suecas, que, para poderem servir-se livremente das mãos e fazer meia, as colocam dentro de um saquinho de pele, segura às cóstas com alças, como uma mochila.

Chamam a isto, aqui, poner los niños á chimchim.

Um dos mais pitorescos costumes da Terra de Miranda, relacionado com o trabalho da fiação, é, sem duvida, o do fiadouro.

Entrado outubro, já um pouco fresco e de dias mais curtos, e, depois, meses de inverno fóra, quando o tempo o permite, começa o mulherio das aldeias a reunir-se, á noite, nos fiadouros. No meio da rua, ao ar livre, em volta de uma fogueira que alumia e aquenta, reunem-se dez, vinte ou mais mulheres, velhas e novas, que querem seroar, trabalhando.

A casa mirandesa tem sempre, ao lado ou á frente, um pateo amplo, em parte coberto, cercado de muros, fechado por um grande  portão. É o cabanal. Apesar disso, o fiadouro faz-se na rua, sendo o recinto do cabanal só utilizado se chove em meio da partida.

Fig. 3 - Ornatos desdobrados da vara
de uma roca mirandesa

   Cada uma das mulheres que comparecem deve trazer a sua mancheia de lenha, a sua gabéla de cavacos, troncos secos, brossa ou tascos, que são os palhuços que ficaram do linho, depois de batido e espadelado e tiradas a estopa a estopinha e as cabeças.Á roda do fogo, então, umas fiam, outras fazem meia, outras, finalmente, cantam, chalaceiam, divertem-se, namoram. As casadoiras quasi que não fazem mesmo outra cousa, pois, como é natural, o fiadouro não se reduz á assembleia feminina. Cercando as raparigas, aparece a mocidade do lugar ou da rua, parentes, amigos, conversados das presentes.

Tive ocasião de assistir, casualmente, a um destes fiadouros, e a impressão que recolhi é das que tenho mais fortemente vincadas na memoria.

Seguia meu caminho, noite fechada, quando, ao lado da estrada, sobre a esquerda, divisei, rodeando o fogo alto e claro, um agrupamento ruidoso, que o meu guia designou logo com o nome genérico de fiadouro.

Fig. 4 - «Roquil» de madeira de uma roca de Caçarelhos, com a
ornamentação desdobrada

Imaginae um trecho de rua aldeã, em ligeiro pendor, irregular no piso e na largura, entre um portão de cabanal, larguissimo, a verga pesando sobre cachorros toscamente lavrados, e uma casa com alpendre aguentado em espéques desafeiçoados de madeira. Por tecto, o ceu estrelado, longinquo.

Em róda da fogueira, duzia e meia de mulheres, velhas e novas, de casaquinhos curtos, as saias grossas, alargando, campanudas, os lenços cingidos á cabeça, como toucas, olhos luzindo do reverbero das chamas, nas faces largas, roliças ou encarquilhadas. Á volta delas os rapazes, de pé, as capas de honras, pardas, caindo dos ombros em pregas sobrias, nobres, quasi rigidas, as honras e as franjas das alêtas agitadas, irrequietas, saltitantes, conforme o movimento irregular das cabeças.

Galhófa, risos, derrête. Urn, tóca na fraita de madeira, bordada de feitios coloridos de vermelho, módinhas de gosto barbaro.

Outro, alterna com ele, gemendo no harmonium acompanhamentos ingenuos, cem vezes repetidos.

Ora em vez, um par, dois pares, erguem-se e dansam (1) umas cousas primitivas, alegres e compassadas.

Chega um ou outro curioso, de cara descoberta ou embuçado, com o carapuço da capa deitado sobre a cabeça, em biôco. Se vem de cara franca, conversa um bocado, ri, arrancha, ou segue o seu caminho para outro ponto; que, ás vezes, ha tres e quatro fiadouros na mesma terra. Se vem embuçado, é saudado com perguntas, cochichar desmarcado entre as novas, motejos, a ver se se dá a conhecer.

Quando o não faz, é algum rival despeitado, que vem gosar o gosto amargo de ver a sua preferida toda atenções para outro; ou então algum adepto doutro fiadouro a quem interessa examimar o andamento da função.

E assim se passa o tempo até altas horas, por vezes até ao cantar dos galos. Normal é, porém, que se  termine a partida pela meia noite.

É natural que este costume se tenha conservado na região desde os tempos mais remotos, por ventura desde que o conhecimento da fiação ali chegou, trazido de fóra por algum barbaro indigena da pedra polida. Julgo que terá alguma rclação com esta usança primitiva a passagem de um Livro de Obitos da cidade de Miranda, dos anos de 1728 a 1786, que em nota transcrevo (2).

Fig. 5 - Ornamentação de uma roca de Genizio

Na Beira Alta e no Minho, é costume, nas aldeias, reunirem-se mulheres e raparigas em serão para fiarem e fazerem meia, ora em casa de uma, ora de outra. Mas esses serões, embora alegres, São bem diferentes, por limitados na assistencia e na organização, das liberrimas reuniões de Terra de Miranda.

Por toda a zona raiana, que abrange os concelhos de Vimioso, Miranda e parte do do Mogadouro, as rócas aparecem--nos de urn tipo especial, carateristico, definido, generalizado, com exclusão, quasi, de outros tipos ..

Perto de uma das extremidades de uma vara de madeira, fazem-se dois entalhes circulares, bastante profundos, ao meio dos quaes se mete uma argolinha de cortiça, em geito de verticilus de fuso. Firmando nos entalhes mencionados os tôpos aguçados de uma serie de caninhas - quasi sempre 26 -, os construtores de rócas obteem uma gaióla biconica, formada de minusculas aduélas, imcompletamente unidas, que, para maior segurança, ora se entalham no rebôrdo da cortiça, ora se firmam sobre ela com uma cinta de couro, pregada com tachas amarelas. Essas tachas, porém, não se cravam nas canas, mas no intervalo que medeia entre aduéla e aduéla.

Como se vê, as fugas da róca passam aqui a ser extranhas á vara. A rodéla interior, essa, corresponde ao siso, ao cesoiro e ao rocão de outras bandas.

Na gaiola formada, metem, antes de a cerrarem, duas ou tres sementes, muitas vezes uns simples feijões, que, soltos no interior, denunciam sempre ruidosamente a, sua presença a cada deslocação do utensílio. Costume idêntico perdura na Sicilia, onde as pedrinhas que se deixam dentro da roca teem como fim principal o manter acordada, ao serão, a fiandeira, que, se se deixasse dormir fiando, podia ser atacada pelos maus espíritos.

Chamam a isto os ruges da róca.

Estas as partes fundamentaes. Resta sómente, agora, a decoração. O espaço que fica livre, para cima e para baixo do bôjo, pertence aos artistas.

E que artistas !

Tenho corrido o meu pais quasi por completo, estudando-o etnografica, arqueologica e artisticamente. Trago dentro em meu peito, como resa a cantiga, a lembrança amoravel e consoladora das suas paisagens risonhas e dos seus costumes particularistas; de memoria conservo a divisão das suas provincias de Etnografia Artistica, os trabalhos executados pelos trabalhadores ruraes e pelos pastores de todo Portugal. Em parte aIguma encontrei nunca arte rustica de tão recatado e acentuado carater, e de tão minuciosa execução.

Fig. 6 - Ornamentação de uma roca mirandeza

Tenho descrito, quasi cantado, os Iavôres alentejanos e algarvios executados sobre madeira, cortiça e chifre, dos cajados, cossoiros, chavões, rôlhas, sovinos, tarros, caixas, colheres, etc. Estava convencido de que nada existiria, na decoração pupular miúda, que se lhe podesse comparar. Miranda veiu demonstrar, com as suas rócas, que os habitantes do planalto eram capazes de igualar, senão de superar, em bordados sobre madeira, os habitantes das planicies.

A arte popular alentejana difere essencialmente desta, porque é profundamente tradicional, empregando com inaudita frequencia a roseta sexifolia e a suastica, simbolos cuja representação tem acompanhado todas as civilizações, desde tempos remotissimos. Aqui, as figurações são todas biomorficas, e de mais minuciosa execução que os Iavôres ruraes do Alentejo.

Em meu entender, toda a arte popular portuguesa evoluciona entre dois tipos diversos de obras, que são tambem duas extraordinárias manifestações de engenho e execução: em grande, as cangas e jugos de entre Vouga e Lima; em pequeno, as rócas  mirandesas.

Em Terra de Miranda, a parte inferior da róca ornamenta-se de forma diversa da da superior, que, em alguns pontos se denomina as torres. E, na verdade, todo furado de janelinhas, quadrangulares ou de volta redonda, o tronco da vara lembra, sem contestação, uma torre, que, em alguns casos, aparece até provida de minusculos sinos.

Nos espaços que medeiam entre as ventanilhas, encurvam-se traços de flores ou alinham-se fiadas de riscos, em geito de nervura de folha ou espinha de peixe.

A gaiola do bôjo recebe tambem algumas vezes a sua ornamentação, levemente riscada sobre as aduelasinhas que a campôem.

Na parte inferior é que, porem, se manifesta, exuberantemente, a arte rustica mirandesa.

Em faixas, separadas par massas cerradas de desenhos com caracter geometrico, acumulam-se as representações fito, skuo, ou biomorficas: flôres; frutos; corações floridos; corações rodeados das encantadas chaves de os abrir; o altar em que os dois se hão-de casar, as alfaias sagradas - calix, custodia, castiçães, sacrario - alinhadas sabre a banqueta: o nome dela, ou a seu apelido - «Ana Maria» ou «Babula»; dedicatorias ingenuas, como a da fig. 7: ESTA ROCA.ADE: SER; EM TUDO FERVUROZA. CACARI(L)HOS. ANNO D 1883.

Noutras tiras, peixes, uma cobra, uma rã, cães ou raposas, um picapau, um marcêgo,

uma arvela, qualquer outro animal conhecido ou peculiar da região.

Fig. 7 - Ornamentação de uma roca
de Caçarelhos

Frequentemente, as figuras dos dois: o namorado que borda e aferece a róca, e a dona do seu pensamento, representados com as atributos respectivos. Na fig. 4, o homem segura na mão direita a ferramenta do oficio; ela, num braço, um ramo de flôres, no outro, uma armação de madeira em que, na região, se conduzem os bolas de noivado.
           Julguei, ao principio, que o objecto fosse um esquadro ou nivel, a antiga libella de pedreiro; mas, como é ela que a segura, não Ihe vejo outra interpretação. Na fig. 6, ele, o sexo bem definido, a espingarda ao lado, extende a mão esquerda sabre o coração onde ela pousa tambem a sua dextra. Ela é bem a mulher de Miranda, acampanhada da sua róca, onde o prendedor se dívisa nitidamente, e do longo fuso regional.

Varia tambem um pouco, de terra para terra, a nomenclatura das partes componentes do popular instrumento de fiação.

No Vimioso, á parte superior chamam as torres da roca; ao bôja, roquilho; á correia de segurar o fuso, prendedôr ou descanso; ao baraço de envalver a manélo, cinta ou correia; á agulheta em que esse baraça termina, espicha. O linho encoifa-se com o cartapácio.

Em Campo de Viboras, temos os nomes de vara, roquil, correia, espicha e cartapaço (que é, geralmente, feito com cartas de jogar). Obram-se aqui, no dizer dos habilantes, rocas mui guapas.

Em Caçarelhos encontramos a vara com a sua cabeça (parte superior), a roquil, formado de costelas, a prendedôr, a correia de manêlos e o cartapaço.

A pouca distancia desta aldeia, em Genizio, ouvi chamar á parte superior da vara roquil ou roquilho - é possivel que o meu informador se enganasse --; ao bôjo, côstas; á parte inferior, rabo. Os nomes restantes são comuns. Ha em Genizio um fuseiro e varios roqueiros, que, por $J20 fazem já uma róca bem guapa.

Todas (3) as de Malhadas usam no extremo da correia uma espicha de estanho, lavrada de desenhos.

Na propria cidade de Miranda, a terminolagia é, pouco mais ou menos, a mesma.

Informou-me a tecedeira que móra «aos Quarteis» de que, ao passo que nas aldeias chamam copo á rocada de lã, na cidade Ihe chamam manêlo. Efectivamente, á medida que se caminha para o sul, essa designação aldeã e a mais empregada.
           Sendim do Douro, na raia, terra grande e rica, chegada ao rio, tem fama nos conceIhos de Miranda e Mogadouro, pelo trabalho das suas rócas: Ha-as de variadissima ornamentação, com as varas vestidas em grande parte de estanho, floreadas tal qual como se fossem de madeira. Botou fama por longe, no seu tempo, o Antonio Patalão, que as lavrava como poucos!

No Museu Municipal de Bragança, existem, entre outros objectos etnograficos dignos de nota, duas rócas da região mirandesa, uma das quaes entrada para o edificio já em 1897. Ha muito, portanto, que a forma e a decoração do utensilio de fiação preocupavam os investigadores regionaes.

Uma é do tipo vulgar, atrás descrito, apresentando torres bem enfeitadas, e as aduelazinhas de cana unidas á vara e á rodela inferior com tres fitinhas de seda, pregadas com tachas amarelas. A outra, proveniente da freguesia raiana de Angueira, tem o roquil em forma de cabaça e é totalmente revestida de palha tingida de verde e amarelo, em dois tons.

E aqui se interrompem as minhas notas sobre o utensilio principal da fiação mirandesa.

Que proveito e que conclusões se poderão tirar deste longo e, porventura, fastidioso estudo?

Alem das indicações sobre uma industria popular, tipica, e sobre costumes regionaes, deixadas no decorrer dele, fica estabelecida, em primeiro lugar, a persistencia do uso do popular instrumento de fiação, entre nós, no ano da graça, ou de desgraça, de 1916. Em segundo lugar, marca-se para a arte regional mirandesa o posto que lhe cabe.

Do estudo que tenho realizado acêrca da nossa arte popular, julgo poder concluir que os seus documentos aparecem escalonados, em ordem ascendente, em três categorias ou estilos, que abrangem:

Fig. 8 - Esmohas de estanho, de Malhadas

1.° Estilo. Ornatos geometricos.

2.° Estilo. Ornatos geometricos; motivos naturalisticos, biomorficos e skuomorficos.

3.º Estilo. Ornatos geometricos; motivos naturalisticos, biomorficos e skuomorficos; motivos tradicionaes.

Não desenvolvo, nem justifico, agora, esta divisão.

Basta dizer, com referencia ao lavôr artistico manifestado nas rócas, que os habitantes do planalto de Montemuro e os de parte de Trás-os-Montes, se encontram ainda no estádio dos ornatos geometricos, simples.

Desde o neolitico que se conservam nele. Passaram os seculos, caíram, umas após outras, as civilizações, e eles permaneceram na sua rudeza inabalavel, tal como grande numero de tribus africanas, cuja arte  decorativa apresenta uma quasi identidade de formas e processos com a deles.

A gente da Terra de Miranda encontra-se no segundo estadio. Representa a vida, tal como a vê, como a concebe estreitamente. É Iimitada e é feliz.

No terceiro estilo, inaplicavel ás rócas, cabe a arte dos jugueiros interamnenses e a dos pastores alentejanos. Caracteriza-se pelo emprego da roseta sexifolia e do suastica.

O que é maravilhoso, é como, sendo a região de Miranda o mais rico foculare português da representação destes dois simbolos nos tempos romanos, o povo não os incorporou, ahi, decisivamente, na escala dos seus motivos ornamentaes.


            E para concluir. Todas estas obras decorativas juntas, não valem, sequer, eu sei, a mais modesta figurinha de presepio setecentesco.

Nem pot isso devemos deixar de as descrever e reproduzir, pois elas são a mais pura e genuina  manifestação estética da alma popular, ignorante e rude, mas sincera.

 

Lisboa, Dezembro de 1916 (Desenhos do autor).

(1) Grandes dansadores os da Terra de Miranda! Quando se quer significar que uma coisa é própria para outra, indispensavel mesmo, emprega-se, para termo de comparação: «Como as de Malhadas para a dança».
Quem não se lembra ainda da dança dos paulitos, que, no centenário de 1898, embasbacou os lisboetas?

(2) «Aos vinte e seis dias do mes de Janeyro nesta, digo, de mil setecentos e secenta e dois nesta cidade de Miranda com idade de secenta e cinco  annos pouco mais ou menos faleceo da vida presente Maria. Martins Montejra viuva que ficou de Pedro Sebastião moradora nesta cidade, e natural de Uva. Não se sabe a que horas morreo, nem levou sacramento algum por que hontem que se contavão vinte cinco do mesmo mes estava boa e de saude e esteve a fiar the dishoras da nojte, como alcancei por informação ... ».

(3) Que o leitor, se algum dia passar em Malhadas. risque do seu vocabulario a palavra todas.

As mulheres do povo consideram o seu emprego um irreparavel ultrage para a sua honra colectiva.

Vergílio Correia - Historiador de arte (Peso da Régua, 19.10.1888 – Coimbra, 3.6.1944). Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, em 1911, que iria ainda conferir-lhe o grau de doutor em Letras, em 1935, e nela regeu as cadeiras de estética e História de Arte (desde 1921) e de Arqueologia (a partir de 1923).

Foi conservador do Museu Etnológico Português (1912) e do Museu Nacional de Arte Antiga (1915), vindo a assumir a direcção do Museu Machado de Castro (1929) em acumulação com a sua actividade de professor.

Fundou as revistas Arte e Arqueologia (1930) e Terra Portuguesa (1916) e dirigiu o Diário de Coimbra (1938-1944).

Publicou valiosos estudos sobre a história da arte portuguesa, arqueologia e etnografia. Estreou-se com os volumes A Igreja de Lourosa da Serra da Estrela, 1912, e Etnografia Artística, 1916.

Outras obras dignas de realce: Vasco Fernandes, 1924, Pintores Portugueses dos Séculos XV e XVI, 1928, A Arquitectura em Portugal no Século XVI, 1929, A Escultura em Portugal, Os Séculos XII, XII e XIV, A Arte em Coimbra e Arredores, 1949, Azulejos, 1956, e Obras, 1946-1978, em cinco volumes.

A morte prematura, em 1944, interrompeu uma carreira brilhante, indissociável do Inventário Artístico Nacional e da investigação de Conímbriga e do criptopórtico de Aeminium. 

yousoumirandes@gmail.com 2004 © Site: Autoria Raúl Silva
colaboração de Teresa Ferreira
e Rita Segundo